
Como organizar um projeto real no Cubase (tracks, MixConsole e bounce)

Cubase não é difícil porque tem botão demais. É difícil porque o projeto cresce torto. Três horas depois você tem Audio 12 sem nome, reverb no insert de cada faixa, Stereo Out no vermelho e um bounce que sai com click, metrônomo ou um canal mudo. Eu vejo isso toda semana no estúdio.
Eu sou Michael Müller. Produzo, mixo e ensino na iGroove, em Barra da Tijuca, desde 2008. Aulas 100% individuais. Cubase, no meu método, é sessão: pasta, nomenclatura, roteamento e entrega. Não é tour de plugin.
Abaixo é o fluxo que eu uso quando o aluno chega com uma ideia e precisa sair com uma faixa. Números inclusos. Sem romance de workflow criativo.
Antes de criar a primeira track
Abra File → New Project. Escolha Empty. Template de fábrica com 48 faixas já prontas só adianta bagunça. Se você tem um template seu, ok — desde que ele tenha Group, FX e nomenclatura. Se não tem, comece vazio.
Project → Project Setup (Shift+S). Eu gravo e mixo em 48 kHz / 24-bit na maioria das sessões pop, trap, house e voz. 44,1 kHz só se o destino final for CD físico de verdade. Sample rate errada no começo vira conversão na hora do bounce. Resolve no minuto zero.
Defina o andamento antes de gravar o primeiro loop. Transport: BPM e fórmula de compasso. Clique no campo de tempo e digite 92, 110, 128 — o número real da música. Cubase deixa você descobrir depois. Depois vira time-stretch em cima de vocal. Não faça isso.
Crie a pasta do projeto no disco certo. Cubase pergunta o Project Folder. Eu uso um SSD dedicado, caminho curto, sem iCloud, sem Desktop, sem pendrive. Dentro da pasta vão Audio, Edits, Images. Se o .cpr ficar numa pasta e o áudio em outra, no dia que você mover o HD o projeto abre cheio de Offline.
Salve já: File → Save. Nome do arquivo = nome da música + data. Exemplo: noite_fria_2026-09-02.cpr. Não chame de projeto1. Daqui a três meses você não lembra qual projeto1.
Tracks: o que criar e como nomear
No Cubase você não abre um canal. Você cria um tipo de track. Cada tipo tem papel. Misturar os papéis é o começo do caos.
Audio track: microfone, guitarra, vocal, loop, stem de fora. Instrument track: um VSTi. MIDI track: só se o instrumento estiver num rack separado — na prática, Instrument resolve 90% dos casos. Folder: organização visual. Group Channel: submix. FX Channel: retorno de efeito. Marker track: estrutura da música.
Crie as pastas primeiro, não as faixas. Folder DRUMS, BASS, MUSIC, VOX, FX. Depois jogue as tracks para dentro. Sem folder, 40 faixas viram lista infinita na MixConsole.
Nomenclatura que eu cobro do aluno, sem exceção:
01_KICK — kick de áudio ou sampler, sempre o primeiro da pasta de bateria
02_SNR — snare ou clap principal, um só. Ghost e layer vão 02b, 02c
03_HH — closed. Open hat é 03o. Não misture no mesmo canal se a dinâmica é diferente
10_BASS — baixo principal. Sub separado só se você realmente vai processar diferente
20_KEYS — se forem três papéis, três faixas: 20a_PIANO, 20b_PAD, 20c_ORGAN
30_LEAD
40_VOX_LEAD — voz principal. Doubles: 41_VOX_DBL_L e 42_VOX_DBL_R. Ad libs: 43_VOX_ADLIB
Número na frente ordena. Prefixo diz o que é. Cubase mostra o nome na MixConsole, no Inspector e no Export. Audio 07 não diz nada no bounce de stem.
Cor: uma cor por pasta. Drums azul, baixo vermelho, harmonia verde, voz amarelo, FX cinza. Olho cansa. Cor barata resolve.
No Inspector da Audio track: Record Enable só na faixa que vai gravar. Monitor só se você precisa ouvir o input. Input = o canal da interface. Output, por enquanto, Stereo Out. Já já a gente muda para Group. Gain de entrada no pré da interface, não no fader do Cubase. O fader é mix, não trim. Pico de gravação entre -18 e -12 dBFS. -6 dBFS já está alto para vocal com compressor depois. Clip vermelho na track é take morto. Grava de novo.
Estrutura da música no Project window
Crie uma Marker track. Locators: Left e Right. Eu marco Intro, Drop, Verso, Refrain, Ponte, Outro. Sem isso você exporta um pedaço no feeling e corta o reverb do final.
Defina o ciclo com Left locator no começo do intro (compasso 1) e Right locator 1 ou 2 compassos depois do último decay. Reverb de vocal precisa desse rabo. Se o Right locator cai no último kick, o bounce corta o ambiente.
Snap em Grid, 1/16 ou 1/8 conforme o gênero. Grave o que precisa solto, depois quantize com Q. Não quantize vocal como se fosse hi-hat. AudioWarp demais no vocal vira chipmunk no sibilante.
Várias takes na mesma Audio track: Show Lanes. Comping com tesoura (Split) e deixe a take boa na lane principal. Não crie VOX_TAKE1, TAKE2, TAKE3 como tracks separadas para não perder. Isso infla a MixConsole e ninguém muteia o take ruim na hora do bounce.
MixConsole: roteamento de verdade
Abra a MixConsole: F3. Isso não é o equalizador grande. É o patchbay. Se você só mexe fader no Project window, você não está mixando no Cubase. Está volumeando clip.
Da esquerda para a direita, na minha sessão típica: tracks de áudio/instrumento → Group Channels → FX Channels → Stereo Out. Cubase deixa você arrastar canais. Organize. A leitura visual precisa bater com a pasta.
Routing que eu monto em 10 minutos:
Todas as baterias → output no Group GR_DRUMS
Baixo → GR_BASS (sozinho; baixo não mora no Group de bateria se você vai sidechain)
Keys, pads, guitars → GR_MUSIC
Vozes → GR_VOX
FX de produção (risers, impacts) → GR_FX ou Stereo Out se forem poucos
Os Groups → Stereo Out
Na MixConsole, clique no campo de output no rodapé do canal (Routing). Escolha o Group. Se o Group não existe: Project → Add Track → Group Channel. Stereo. Nomeie GR_DRUMS, não Group 1.
Por que Group e não tudo no Stereo Out? Porque você precisa de um fader só para a bateria inteira, um compressor no kit, um bus de voz. Sem Group, você baixa 11 faders de drum e esquece o rimshot. Com Group, um fader. Mix de verdade começa aí.
Insert vs Send, regra curta: equalizador, compressor, saturador, de-esser, gate — insert na faixa ou no Group. Reverb e delay longos — send para FX Channel. Reverb no insert de 8 vozes é 8 algoritmos. No FX Channel é 1, e você controla o tamanho com o send de cada faixa.
Para criar o retorno: Project → Add Track → FX Channel. Plugin no slot (RoomWorks, REVerence, delay do Cubase). Output do FX Channel vai para Stereo Out. Na faixa de origem, Sends na MixConsole. Ative o send para esse FX. Eu deixo post-fader na maioria dos vocais. Send em -18 a -12 dB já é ambiente. Send em 0 dB é vocal dentro do banheiro.
FX que eu abro em quase toda sessão, não mais que isso no começo:
FX_RVB_SHORT — room 0,8 a 1,4 s, para voz e snare. Não é catedral.
FX_RVB_LONG — 2,2 a 3,5 s, para smash de final de frase e synth. Muteado no verso se sujar.
FX_DLY — 1/8 ou 1/4 dotted, feedback baixo, grave do delay filtrado.
Três retornos. Se você precisa do quarto, ok. Se você tem nove, você não está mixando. Está colecionando preset.
Control Room não é Stereo Out. O bounce sai do que você escolhe no Export, em geral o Stereo Out. Se o metrônomo (Click) está roteado para o mix bus, o bounce leva o click. Conferir: Transport → Click. No Export, desmarque Click. Eu já recebi master com pi-pi-pi em 128 BPM. Não foi uma vez.
Gain staging: pico da faixa -12 a -6 dBFS. Group, pico por volta de -6. Stereo Out, pico abaixo de -3 dBFS, idealmente -6, com LUFS ainda longe de master. Limiter no mix bus, se existir, é segurança de peak — não loudness de streaming.
Group e FX na prática de uma faixa
Exemplo concreto. Música a 110 BPM, voz, kit, 808, duas keys, um pad, um lead.
Crio as tracks úteis, não 30. Kick, snare, hats (um kit num sampler em uma Instrument track se o kit já vem pronto). 808. Piano. Pad. Lead. Voz. Pronto para gravar. Layers entram depois, com nome, não no meio do take.
GR_DRUMS leva um compressor suave (ratio 2:1, attack 30 ms, release no tempo do BPM) só para colar o kit. GR_VOX leva de-esser e um compressor de vocal. GR_MUSIC leva um EQ de faxina: corte em 30 Hz, um recorte se o pad brigar com a voz em 2–4 kHz.
Sidechain: o kick dispara o compressor no 808 ou no pad. No compressor do baixo, Side-Chain ativo, input = 01_KICK. Mix 50–80% se for house; mais sutil no pop. Não sidechaineie vocal no kick só porque viu no YouTube.
Automação: no Project window, Read (R) e Write (W) no canal. Volume da voz no refrain sobe 1 a 2 dB. Send de delay só na última palavra da frase. Não desenhe 400 pontos no fader do Stereo Out. Automatize a faixa ou o Group.
Export e bounce sem surpresa
File → Export → Audio Mixdown. Não é salvar mp3 para o WhatsApp. É a mix. O que você ouve no Stereo Out com os locators certos.
Checklist antes de apertar Export:
Left locator no arranque real; Right locator 1–2 compassos depois do último decay
Click desligado. MIDI que não entra no arranjo, mudo. Offline resolvido ou removido
Nenhuma track no mute errado. Nenhuma no solo esquecido — Solo de MixConsole exporta uma caixa só
Stereo Out sem clip. Se o pico passou de -0,3 dBFS, abaixe o Group. Não só um limiterzinho
Plugin de análise no Stereo Out em insert, último slot. Eu meço. Não chuto
Na janela de Export: Channel Selection = Stereo Out (ou o Group se for stem). File Format = WAV, 24-bit, a mesma sample rate do projeto (48 kHz). WAV 24-bit é entrega de mix. MP3 320 é referência de celular, arquivo separado, nomeado _ref.mp3.
Naming: musica_mix_v03_48k24.wav. Versão no nome. Cubase não vai lembrar que aquele bounce era o bom.
Stems: se a faixa vai para outro engenheiro, exporte os Groups. GR_DRUMS, GR_BASS, GR_MUSIC, GR_VOX — cada um um WAV, same start, same length, same sample rate. Cubase faz isso com múltiplos canais marcados. Não exporte 40 faixas cruas se o cara pediu 4 buses.
Fast Export funciona se não tem plugin que exige tempo real. Se o bounce rápido ficou diferente do play, rode Real Time. Demora. É o arquivo certo.
Bounce não é master. LUFS de streaming (-14 integrado no Spotify, true peak abaixo de -1 dBTP) é etapa seguinte. Se você esmaga o mix em -8 LUFS no Stereo Out, a masterização herda um tijolo. Entregue mix com dinâmica.
Erros que eu corrijo toda semana
Tudo no Stereo Out, zero Group. Mix sem submix não escala. Na terceira guitarra você já perdeu o fader da bateria.
Audio 01… Audio 18. Sem nome, sem cor, sem folder. No dia seguinte o aluno não acha o ad lib. Eu também não.
Reverb no insert de cada vocal. CPU no teto, 8 rooms diferentes, a voz some. Um FX Channel. Send. Acabou.
Gravar pack em sample rate diferente sem converter. Cubase pergunta. A resposta errada deixa o áudio fora do grid.
Output da track em No Bus. Som some. O aluno sobe o fader. Não é fader. É routing.
Monitor da interface + Monitor do Cubase ao mesmo tempo. Vocal duplicado, delay de 10 ms, o cantor desafina tentando se ouvir. Escolha um.
Buffer em 32 samples na mix, estalando; buffer em 2048 na gravação, atrasando o cantor. Grave em 64–128. Misture em 512–1024.
Exportar com faixa no Solo, com Click, cortando o reverb no locator, ou em MP3 como master. Quatro jeitos de entregar lixo com cara de arquivo pronto.
Plugin em 50 faixas porque o preset é famoso. Processamento no Group resolve 70% do que o aluno tenta na faixa.
Não salvar versão. Um Save As a cada bloco: _rec, _edit, _mixv1. Cubase crasha. Versão antiga é seguro, não atraso.
Checklist de 12 minutos (cronometra)
Antes de chamar a sessão de projeto:
Project Setup: 48 kHz, 24-bit, pasta no SSD certo, .cpr salvo com nome da música
BPM e compasso definidos. Marker track com as seções. Locators com rabo de reverb
Folders + nomes com número. Cores por grupo. Zero Audio 04
Groups: DRUMS, BASS, MUSIC, VOX. Outputs das tracks nos Groups. Groups no Stereo Out
Três FX Channels no máximo no começo. Sends post-fader. Sem reverb-insert em massa
Pico de gravação -18 a -12. Pico de mix bus abaixo de -3. Click fora do bounce
Export WAV 24-bit, sample rate do projeto, nome com versão. MP3 só como referência
Se faltou um item, a sessão não está pronta. Continuar compondo em cima só enterra o erro mais fundo.
Quando o Cubase vira método, não menu
Organizar projeto não é burocracia. É o que deixa você terminar a faixa na mesma semana em que começou. Cubase aguenta orquestra, pop, trap, live. O que ele não aguenta é 60 canais sem dono.
Se você trava no roteamento, no bounce ou em por que isso não sai no export, não é falta de vídeo. É falta de alguém no seu ombro na sessão real. Na iGroove o curso de produção musical é individual, no Cubase que você usa, com o seu projeto aberto. Presencial na Barra da Tijuca, Shopping Città América, Av. das Américas 700 loja 210G — ou o mesmo método ao vivo se você já produz em casa. Desde 2008.
WhatsApp: 021 99927-6402
music@igroove.com.br




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